terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O Potengi

"Esse rio é uma loucura,
esse rio é um assombro,
já fiz amor no seu leito
com água pelos meus ombros.
(...)
Esse rio é tão bonito
que perdôo sua loucura.
Ele afoga o pôr-do-sol
e corre à minha procura."
(in Autobiografia, Nei Leandro de Castro, 2008, foto Sandra Porteous)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Anotações de leitura

"...Enquanto vivemos na nossa terra, parece-nos que aquelas ruas nos são indiferentes, que aquelas janelas, telhados e portas nada significam, que aquelas paredes são completamente estranhas, que aquelas árvores nasceram ontem, que aquelas casas, onde nunca entramos, são inúteis, que as ruas por onde andamos não passam de simples pedras. Mais tarde, quando estamos longe, é que percebemos como nos são queridas aquelas ruas, como nos fazem falta aqueles telhados, aquelas janelas e portas, como nos são indispensáveis aquelas paredes, como gostamos daquelas árvores, como aquelas casas, onde nunca entramos, faziam parte da nossa vida, e que deixamos entranhas, sangue e coração nas pedras daquelas ruas."
(by Victor Hugo, in Os Miseráveis)

sábado, 20 de dezembro de 2008

Caicó

Ah, o Itans. Sofro, como todo caicoense, quando vejo que a sua lâmina d'água está abaixo do normal. E transbordo de alegria quando suas águas transbordam. Itans são águas que beijam e embalam o sertão, Itans são as primeiras águas que vi na vida. Itans é uma referência de emoção, Itans é uma ternura líquida e certa.
(Saudação a Caicó, Nei Leandro de Castro - foto de Sandra Porteous)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

In the middle of the trip.

Estão chegando
os quatro cavaleiros
montados em metais
soprando trombetas
em gozos letais
exibindo a cor do som
(mistura de todas as cores
inclusive a marrom)
e o som escorre
como um arco-íris de lata
e a viagem
mais do que me embala
me mata.
(in Musa de Verão, 1984, Nei Leandro de Castro - Foto: Sandra Porteous)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Kirimurê

"... Salve as folhas brasileiras Oh salvem as folhas pra mim Se me der a folha certa E eu cantar como aprendi Vou livrar a Terra inteira De tudo que é ruim. Eu sou o dono da terra Eu sou o caboclo daqui Eu sou Tupinambá que vigia Eu sou o dono daqui..."
(Jota Velloso, foto Sandra Porteous)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Prazer de leitura

O livro "Leila Diniz por Joaquim Ferreira de Souza" me levou numa viagem à infância no Rio de Janeiro. Minhas lembranças:
  • Vovó cantando "Eu sou o pirata da perna de pau..." enquanto se vestia para sair no bloco de sujo no carnaval de 1956.
  • Assistir aos filmes de Tom & Jerry e Oscarito nas matinês do Metro Copacabana.
  • Pegar bonde na Nossa Senhora de Copacabana.
  • Visitar amigos que moravam na Lagoa ou no Jardim Botânico e achar muito longe.
  • Sentir um friozinho na barriga quando o carro do meu primo Zé Luis passava por cima da ponte na Urca.
  • Andar de charrete puxada por bode no Jardim de Alá.
  • Frequentar a Biblioteca Thomas Jefferson na esquina da Santa Clara com a Avenida Atlântica.
  • Pular carnaval no grito de carnaval da Rua Toneleiros com a Santa Clara (o túnel ainda não existia).

Eu acredito que o Rio de Janeiro ainda pode voltar a ser tão mágico quanto era na minha infância.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Flor/Firenze

Uma cidade que me maltrate de beleza e Renascença que me dante, beatriz-me, ponte vecchia que me convença que a travessia é semi-eterna como a crença. Águas do Arno, pedras de Carrara que um anjo chamado Miguel seminou com um cinzel (os escravos desse anjo louco vão se libertar da pedra daqui a pouco). Uma cidade que me aponte: Masaccio - e a emoção invada as artérias do meu coração como uma suave doença. Florença. (Nei Leandro de Castro, ilustração de Masaccio)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Grandes amores e traições

Aos 28 anos de idade, numa noite sem lua e sem estrelas, cometi uma grande traição a quem eu amava imensamente. Dei as costas para Natal e fui viver minha paixão pelo Rio de Janeiro. Para trás ficavam lugares e momentos inesquecíveis: os banhos no rio Potengi, os mergulhos no Poço do Dentão, a magia da rua da Estrela com a rua Professor Zuza, o areal sem fim da rua Apodi,os mistérios do Morro do Estrondo, a beleza das praias de águas mornas, a ternura eterna de dona Alice, um certo capitão Antônio de Castro que, numa noite, na praça Pio X,deu uma surra num marginal forte e valentão que ousou bater na criança que era o meu irmão Airton. Havia ainda, como uma saudade incurável, uma flor e um maremoto de paixão chamado Margarida. O Rio de Janeiro estava lá, aberto aos meus olhos, disponível ao meu êxtase: uma cidade bela, belíssima, muito grande para quem estava habituado a viver nos limites da província. Foi um difícil começo. Sem dinheiro, sem parente ou aderente que me pagasse uma média com pão e manteiga, foi difícil viver aquela paixão. Tentei vender enciclopédias e descobrimos - eu e o dono do negócio - que eu era o pior vendedor que já havia passado por aquela empresa. O primeiro emprego surgiu meses depois, numa editora que ficava no bairro de Ramos, quatro quilômetros depois da casa do Carvalho. Eu pegava um ônibus bem cedinho, e rodava uma distância Natal-Macaíba, pela avenida Brasil, num trânsito que àquela época já era intenso e perigoso. O percurso de volta, depois de oito horas de trabalho e um lanche nos botecos de Ramos, era ainda mais difícil e doloroso. Certo dia, cansado de tudo com planos de morar em Quixeramobim ou casar, com uma viúva remediada, recebi um novo alento. Uma amiga minha leu um texto que lhe mostrei e disse: "Você leva jeito para publicidade. Conheço uma agência que está precisando de redator". A propaganda, embora seja a profissão que mais reúne egos hiperinflados, é uma fonte de renda. Agora, sim, eu já podia ver o pôr-do-sol de Ipanema sem pensar em dívidas. Podia me sentar num banco à beira-mar, na beleza tranqüila do Arpoador. Podia passear pela Urca dos meus amores. Podia viver intensamente a minha paixão pela cidade mais bela do mundo. Como se não bastasse, numa noite de 1972, no lançamento de um livro em Ipanema, uma mocinha magra, de uma beleza angelical, pele bem clara, cabelos escuros e fartos, se aproximou de mim, com um cigarro entre os dedos e me perguntou se eu tinha isqueiro. Naquele tempo (que horror!) eu fumava e tinha isqueiro. Esse encontro foi mais uma das dádivas que o Rio de Janeiro me ofereceu. Passei a compartilhar minha paixão pela cidade com uma mulher sensível, inteligente, amorosa, companheira de todas as horas. Juntos, também fizemos nossas traições. De repente, quando o Rio se descuidava, a gente o traía com Paris, Roma, Florença, Veneza, Lisboa. Voltar para Natal, em 2005, terá sido uma traição? Acho que não. Foi mais uma reconciliação com a cidade traída em 1968, numa noite sem lua, sem estrelas, sem esperança. Espero que o Rio e Natal compreendam. E compreendam também as nossas paixões renovadas por Paris, Roma, Florença, Veneza, Lisboa.
(in Tribuna do Norte, Nei Leandro de Castro)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Poema Uterino

Os úteros são mornos como esta rede de punhos doces, onde me agito como os punhos de um feto contra paredes internas. Na rede, um fio de memória ou pensamento permanece e me parece medo e esperança de primípara. Penso: as varandas desta rede são placentas que me envolvem. Ou seriam uma teia de cordões umbilicais? A rede me convexa no seu tecido esponjoso. Cuido de aninhar-me, de resistir bem dentro dela, temendo que algo se rompa em torno ou dentro de mim, como uma bolsa d'água.
(in CantocontraCanto, 1981, Nei Leandro de Castro)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Mar sonoro

"Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a sua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim."
(Sophia de Mello Breyner)

Salve as folhas brasileiras

Salve as folhas brasileiras Oh salvem as folhas pra mim Se me der a folha certa E eu cantar como aprendi Vou livrar a Terra inteira de tudo que é ruim. (Kirimurê, Jota Veloso) Foto Sandra Porteous

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Museu Rodin

(foto de Sandra Porteous)

Os peixes luminosos

O primeiro peixe de Luci tinha o corpo verde escuro, a boca vermelha, os olhos oblíquos e amarelos. De noite, a menina levou o peixe para a cama e teve um acesso de asma. Veio o médico, disse que a crise era de fundo nervoso, passou calmante em xarope. Mas a mãe achou que era alergia ao feltro e guardou o peixe em cima do armário. Luci gritou, meio sufocada, o peito subindo e descendo como um pequeno fole, e tanto gritou que recebeu o peixe de volta. Quando o calmante fez efeito, ela adormeceu com o peixe de feltro entre os braços, embalado pela sua respiração de asmática. A mãe de Luci quis substituir o peixe por outros brinquedos (bonecas que dormiam e choravam, bonecas-manequins, bonecos que faizam pipi), mas em todas as tentativas acabou entregando os pontos. Luci esperneava, gritava, ficava roxa, engasgada pelo choro. Quando a asma começava a dar os primeiros sinais, a mãe se rendia incondicionalmente. Foi o pai quem conseguiu afastar Luci de sua obsessão. Trouxe-lhe outro peixe, de matéria plástica, cor de laranja, com quem Luci passou a dividir sua paixão, embora continuasse mais dedicada e carinhosa com o peixe de feltro. Aos dez anos, Luci tinha trinta e sete peixes de todas as formas e cores, mais trezentos e dez rabiscados em seus cadernos de desenho, além dos dois que o pai havia colocado em moldura. No aniversário dos doze anos, a menina ganhou um aquário, onde dois carás-bandeiras nadavam entre miniaturas de corais e um escafandrista que fazia uma linha reta de bolhas de ar, do seu capacete à superfície da água. De noite, quando os convidados da festinha foram embora, os pais da aniversariante se trancaram no quarto de casal, que era ligado ao de Luci. Pouco tempo depois, surgiram os gemidos: a mãe de Luci parecia estar sofrendo muito, muito, muito, até que seus gemidos cessavam tão de repente quanto haviam surgido. Mas desta vez a menina não prestou atenção. Estava hipnotizada pela evolução mágica dos peixinhos coloridos. A asma, que há meses não atacava, veio de madrugada, com violência. Nervosa, evitando os bocejos, a mãe deu antialérgico, calmante, fez nebulização no quarto da doente e ameaçou jogar fora todos aqueles peixinhos imundos que inundavam a casa. Luci olhou para a mãe com um olhar assustado de peixe. Quando o chiado de fole do seu peito permitiu, ela disse: - Se você fizer isto, eu me mato. A mãe saiu porta afora, jogou-se de bruços na cama de casal e molhou a metade do travesseiro com as lágrimas do seu choro abafado. Assim que sarou, Luci foi ao aquário, meteu a mão dentro da água e arrancou de lá o minúsculo escafandrista. Ao pai, ela explicou que aquele homem podia matar os seus peixinhos de noite, quando eles estivessem dormindo. Três dias depois, os peixinhos começaram a agonizar, por excesso de comida, o pozinho amarelado que Luci jogava aos punhados dentro do aquário. O pai notou o começo da agonia dos carás, que procuravam a superfície, de boca aberta e sem respiração, muito aflitos, como se estivessem num surto de asma. Arrastou a menina pelo braço e a levou a uma loja de peixes ornamentais. Luci gritou de alegria com a visão de tantos peixinhos. Havia os esguios e velozes, outros redondos, bonachões, translúcidos, listrados, multicoloridos, com barbatanas de seda tecidas a mão. Ela fez o pai comprar um aquário retangular, com bastante espaço, e seis casais de peixes, os mais bonitos deles. Tinha os neons, vermelhos e riscados por uma faixa verde incandescente, que ia dos olhos à base da cauda. Outro casal, o menor de todos, era cinza acastanhado, com desenhos verdes e uma listra preta horizontal ao longo do dorso. Luci achou muito engraçado o beijador, que tinha um nome perfeito: os peixinhos cor de rosa com reflexos esverdeados ficavam frente à frente, com as bocas unidas, como se estivessem se beijando. Os peixes japoneses era pedaços de cores diluídos na água. Combinavam vermelho, dourado, branco e preto sobre as minúsculas escamas. - Esses duram a vida toda - disse o veterinário. Havia ainda o tricogaster ("Xi, que nome esquisito!", exclamou a menina), azul claro prateado, com faixas verticais onduladas e mais escuras. E, por fim, o casal de peixe-espada, com o macho, soberbo, exibindo o que o distinguia da fêmea: o prolongamento dos raios inferiores da cauda, de cor vermelho-sangue, que parecia uma espada em riste. A menina voltou para casa muito feliz e nem prestou atenção às desculpas da mãe que jurava, má encenação, que os dois peixinhos doentes tinham ido para o hospital dos peixes. Na verdade, os carás-bandeiras, ainda agonizantes, haviam desaparecido numa descarga do vaso sanitário. Luci aprendeu a dosar a comida dos peixes. Bastava uma pequena porção duas vezes ao dia, como ensinara o veterinário. E uma vez por semana, antes da escola, ela se deliciava com a renovação da água do aquário. Ficava horas trancada no banheiro, trabalhando com lentidão e minúcia (o breve momento em que segurava um peixinho lhe causava arrepios), até que a mãe avisava a hora da escola, com batidas fortes na porta. Numa tarde de inverno, de volta do colégio, Luci largou a bolsa no sofá da sala e correu para o quarto dos peixes. Vivia sob o medo de que o frio pudesse matá-los de repente. Contou os peixes, verificando se havia algum morto ou com sinais de doença. Estavam todos vivos, ágeis, abocanhando os minúsculos grãos de ração. Como fazia desde criança, ela se despiu, atravessou nua o corredor, entrou no banheiro. Ultimamente a mãe andava condenando este seu hábito. Os seios da menina já começavam a desabrochar em dois botões carnudos e cor-de-rosa. No banheiro, ansiosa para voltar aos peixes e com preguiça de enfrentar uma ducha, Luci sentou-se no bidê. Nunca o tinha usado, mas já havia surpreendido a mãe agachada ali algumas vezes. Abriu a torneira e sentiu o esguicho morno contra o seu sexo. Primeiro, ela teve cócegas. Depois deixou-se levar por uma sensação que nunca conhecera. Relaxou o corpo inteiro, fechou os olhos e então começou a ver peixes esguios, transparentes, luminosos e quentes penetrando em grandes cardumes pelo seu corpo.
(in Os contos premiados no concurso Unibanco de Literatura, 1978, conto de Nei Leandro de Castro)

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Areia Preta, noite de lua

Vê, amada, como a lua seduz o mar com o seu brilho e se afasta, se afasta em silêncio, deixando turbulências, ondas de frio, oscilações de amor e depois a explosão inútil das águas na areia. O teu silêncio é lunar, menina, viajo nele e tento recompor - como quem recompõe uma estrela despedaçada - os teus gemidos de gozo, o teu sexo de menina em estertor e glória sob o meu furor e sob a magia de tuas mãos. Faz tantos anos, olhávamos abraçados o coqueiro em extrema solidão de Areia Preta. Nenhum de nós, amantes eleitos por semideuses, poderia prever o esplendor e o abismo do silêncio sob uma lua consagrada como o sexo em quarto crescente. Lua que agora se afasta, iluminada e em silêncio e se afasta.
(in Autobiografia, Nei Leandro de Castro - Foto, Sandra Porteous)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Anotações de leitura

"Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas idéias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para nós."
(in "O africano", J.M.G. Le Clézio)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Alice

(Foto, Sandra Porteous)
No dia 8 de novembro, o Rio amanheceu iluminado e nossos corações transbordaram de alegria com a chegada da Alice.

domingo, 16 de novembro de 2008

Cinco momentos do vinho (5)

5. O brinde Como o vinho, amadureça sua ternura, alongue o tempo nos jogos florais do amor. Acaricie: os pêlos de seda ou crespos como a cabeleira de um deus antigo e jovial que só por tédio esmagou as uvas. Prove do vinho nos cristais e na boca que está amealhando todos os beijos. Beba na taça redonda de um ventre. Sinta as carícias que conduzem ao céu da boca. Prove a ternura dos olhos, o morno alvorecer da pele, o corpo sazonado para a colheita, a entrega, a posse mútua. Depois: mais vinho. Fusão perfeita.
(in "Era uma vez Eros", Nei Leandro de Castro - Foto, Sandra Porteous)

Cinco momentos do vinho (4)

4. A alma das garrafas Aberta a garrafa, o vinho se liberta de corpo e alma: memória das primeiras vindimas, som de fauno iluminado por pirilampos, premeditação da alegria de um deus conduzido pelas colinas do mito. Aberta a garrafa, o vinho quer alguns minutos de silêncio e espera como o homem e a mulher no rito que precede o enlaçar dos corpos, as conquistas da língua, a viagem ao céu, véu palatino. Aberta a garrafa, cumpre resgatar a memória das sementes fecudadas no cio da terra, a invenção das uvas esmagadas, a origem do mosto posto em sossego. Em sossego, deite o vinho na translucidez de um cristal puro e beba. A alma das garrafas ilumina: castiçal que se acende no escuro.
(in "Era uma vez Eros", Nei Leandro de Castro - Foto, Sandra Porteous)

Cinco momentos do vinho (3)

3. O envelhecimento O vinho envelhece por sabedoria. Vai conquistando ao tempo corpo e alma, cor de rubi ou topázio ou cor da pele que reveste a fruta de cachos crespos como a cabeleira de um deus antigo e jovial. O vinho: é preciso carinho e maturação: paixão que aos poucos se aproxima da forma compacta e cinzelada por amor. O vinho envelhece por ternura das pipas de madeira que o envolvem como um abraço, um regaço, um ventre de onde retornará em nova vida, corpo, alma e espírito. Santo.
(in "Era uma vez eros", Nei Leandro de Castro - Foto, Sandra Porteous)

Cinco momentos do vinho (2)

2. A fermentação Sol posto. Um deus cansado de néctar dos deuses esmaga as uvas só por tédio e deixa o mosto abandonado a si mesmo. Assim a esmo, nasce o vinho sob a luz de estrelas liquefeitas. O deus bebe do suco ardente e aveludado e a cada gole sente que o tédio se dilui. Seus pés alados bailam como bailarinos na noite ao som de guizos e do vento alísio/elísio. Madrugada, o deus é conduzido por poetas cantando pelas colinas da mitologia sua embriaguez homérica. Alegria.
(in "Era uma vez eros", Nei Leandro de Castro - foto, Sandra Porteous)

CINCO MOMENTOS DO VINHO

1. A semeadura
Memória antiga. O amanhecer dos campos.
Um fauno dessedenta no caudal do rio.
Pirilampos iluminam a breve trégua
de corpos abraçados. O cio
da paisagem. A força da semente
rompe a terra da encosta em plena aurora
como quem rompe/irrompe um hímen.
A hora e o tempo se detêm na fadiga
das coisas simples: a margarida
que definha e morre.
Um hino em flauta equilibra a manhã
em claves de sol e solidão.
Com a testemunha ocular de um pássaro
um ramo verde vide vindima
sobe no caramanchão da tarde
que arde e paira e se desvaira
na fermentada paz depois do gozo.
(in "Era uma vez eros" poesia de Nei Leandro de Castro - foto, Sandra Porteous)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sinos e ventos da altura

O tom dos sinos
Escorrendo nas ladeiras.
Os ventos do Curvelo
E o cheiro morno do Silvestre.
Ponte dos Arcos,
Quantas brumas
Meus sapatos te tocaram,
Sós.
Santa Teresa.
As estrelas se mudaram para o chão.
(Zila Mamede, 1958 - foto, Sandra Porteous)

domingo, 2 de novembro de 2008

Mar, mar

"Thálassa, thálassa, quem me entenderia nesse grito xenofante hemiplégico diante do mar, ondas verdes e azuis e logo brancas, arrebentação onde os peixículos vão se proteger do dardo mortal das gaivotas que se despencam com precisão, mergulham e colhem o alimento de cada dia, a multiplicação dos pães marinhos, ágeis e escorregadios alimentos, cuja beleza deveria ser anfíbia para que eles não estertorassem quando saídos da água, mar, moto contínuo, thálassa, quem me entenderia?"
(in O Dia das Moscas, Nei Leandro de Castro - foto, Sandra Porteous)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Sophia e Florença (crônica Nei Leandro de Castro)

No início dos anos 80, fui a Roma pela primeira vez. Um amigo, muito comedido nos gastos, me alertou: uma corrida de táxi do aeroporto até o meu hotel irá custar uma fortuna. O aconselhável seria pegar um trem, que poderia me deixar no centro da cidade por um preço bem baixo. Ao chegar ao Aeroporto Fiumicino, pedi a Sandra para ficar tomando conta das malas enquanto eu ia descobrir de onde partia o trem da economia. E lá me fui, subindo e descendo escadas, entrando à direita e à esquerda, com o meu senso de direção que me faz me perder até num shopping. A certa altura, num corredor imenso, vejo um rosto que me pareceu conhecido vindo na minha direção. Quando a mulher se aproximou, tomei um susto: era Sophia Loren. Deixei que ela passasse, dei meia volta e saí caminhando quase ao seu lado. Na época, ela estava com uns 45 anos e em plena forma. Perguntei a mim mesmo: peço um autógrafo? Não, seria melhor eu me apresentar como o cinéfilo Moacy Cirne e dizer: "Querida Sophia, eu já vi todos os seus filmes, desde "Sou o capataz", de 1950. Amei "A milionária de Milão" (1951), "A embaixatriz do amor" (1953). "Duas mulheres" ('1961)"... e ia por aí, até esgotar a lista dos filmes que ela havia estrelado. Mas talvez ela ficasse aborrecida. Outra alternativa seria: "Bela Sophia dos meus amores, meu nome é Alex Nascimento, poeta, prosador, natalense, cheio do dinheiro e das melhores intenções. Quer passar uma noite comigo?" Enquanto eu pensava nos termos da abordagem, Sophia Loren caminhava e caminhava, até que num portão a nossa direita dois homens de preto se juntaram a ela e a levaram para um carro que estava a sua espera. E agora? Como voltar? Desisti do trem da economia e iniciei a viagem de volta, à procura de Sandra, mais perdido do que o presidente Lula em tiroteio. Já se passara quase uma hora desde que eu havia deixado Sandra com as malas, quando a reencontrei, muito aflita, pensando em colocar um aviso no serviço de achados e perdidos do aeroporto. Fiquei muito encabulado, inventei desculpas, não tive coragem de dizer que havia me perdido por causa de Sophia Loren. Esse segredo eu só revelei a ela 28 anos depois. Fui absolvido, por decurso de prazo.
****
Na primeira metade dos anos 80 eu caí de amores por Florença. Além do fascínio da cidade, contei com o apoio de um guia absolutamente fora dos padrões. Graças a esse guia, o empresário e escritor Riccardo Zucconi, descobri os afrescos de Masaccio, na Igreja Santa Maria del Carmine. Masaccio, que morreu em 1428, aos 27 anos de idade, nos provoca até hoje um choque de beleza, engenho, arte. Esse meu guia me proporcionou muitas descobertas, sempre me levando a acreditar que eu mesmo estava fazendo essas descobertas. Foi assim com Pontormo e seus anjos com olhar de espanto diante do corpo de Cristo descendo da Cruz. Foi assim com os prisioneiros de Michalangelo, que me emocionam mais do que o belo David e seus cinco séculos de juventude. Mas Florença também seduz pela alma de suas ruas por onde Dante passeou com sua tristeza e genialidade. Da Ponte Vecchio, pode-se ver um pôr-do-sol que só perde para o do Potengi amado. A Piazza dela Signoria é um museu ao ar livre, cercado de bares. Não, não vou dizer mais. Você já foi a Florença? Então vá.

sábado, 25 de outubro de 2008

Os anjos também cometem plágio (Nei Leandro de Castro)

Eu, pecador, dado a desvarios,/libertino, livre de culpas, pretérito,/imperfeito, indeciso entre a solidão e a multidão,/entre o lírio e o delírio,/tive a visão perfeita de uma revoada de anjos/pousando ao meu redor numa noite chuvosa./O da mais alta hierarquia me assegurou/que entre meridianos de longitude oeste/e paralelos de latitude sul/uma mulher se sente adolescendo/e começa a acreditar que ama/e está sendo amada com força e delicadez./O amor molha suas roupas brancas,/torna-a derramada de ternura,/deixa-a tonta como um pássaro ferido de raspão./O amor, me disse o anjo de olhar sereno,/conduz para sua cama de lençóis de linho/um homem ou demônio que habita/o sétimo círculo dos seus sonhos./
Ao perguntar ao anjo da mais alta hierarquia/como ele sabia de tantos segredos e mistério,/ele agitou as asas (e eu percebi sua ereção,/sim, os anjos têm sexo), sorriu e sussurrou:/Há um poeta em mim que Deus me disse.
("Diário íntimo da palavra", publicado em 2000 pela editora 7Letras)

Rio: o amanhecer (Nei Leandro de Castro)

Amanheces/como quem atravessou uma planície enluarada/nas artes de amar./Dispersas os farrapos de nuvens dos teus morros/e começas a reinar na manhã das encostas,/nas enseadas, nos espelhos de prata das lagoas,/nos arcos das praias apontados contra o infinito./Sob a luz meridiana do verão/tua beleza zomba do poema,/blasfema contra os hinos em teu louvor,/wonderful city, nido de ensueño y de luces./Exibes uma sedução quase cruel em tuas formas,/ em teus seios de açúcar e granito,/nas úmidas intimidades de tua baía,/nos teus lençóis manchados de amor à beira-mar./Nada detém tua beleza e avanças sob o sol,/bela e sem pudor, em verdes, azuis/e formas infinitamente nuas. (Diário íntimo da palavra", editado em 2000 pela 7Letras)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Lisboa dos meus amores (Nei Leandro de Castro)

Lisboa é íntima como uma praça, como diria um espanhol cheio de intimidades com a poesia. Lisboa me parece familiar como uma paisagem de Natal ou do Rio de Janeiro. Quando chego por lá, tenho a impressão de que todos os dias marco ponto nas Portas de Santo Antão, onde se saboreia boas doses de ginjas com elas ou sem elas. A rua é cheia de bares e restaurantes. Entrei no restaurante que fica no nº 8 das Portas de Santo Antão, e fui recebido com um ótimo serviço, vinho e cozinha da melhor qualidade. Antes de terminar o almoço, perguntei ao garçom muito simpático como era o nome do restaurante. Ele sorriu, meio encabulado, e disse: Inhaca. Não pude acreditar. O garçom, sempre com um sorriso encabulado, disse que sabia o que significava inhaca no Brasil e que alguns brasileiros não entravam no restaurante por causa do nome. Disse ainda que inhaca, terra natal do dono do restaurante, era uma ilha situada perto de Moçambique. Na despedida, eu disse que iria recomendar Inhaca aos amigos do Brasil de viagem a Lisboa. Você promete que vai lá, Manoel Onofre?
Os vinhos portugueses estão cada vez melhores e a preço bem razoável. O Cartuxa, por exemplo, custa 14 euros. O Quinta da Bacalhoa, que custa uma fortuna por aqui, pode ser comprado a 17 euros por lá. Mas, aqui pra nós, os nomes de alguns vinhos soam muito estranho aos nossos ouvidos. Exemplos: Cabeça de Burro, Quinta da Chinchorra, Casa de Carvalha, Quinta dos Patudos, Rosapena dos Batistas, Quinta do Porrais, Herdade de Espirra, Tapadas do Nascimento, Egoísta (o vinho servido nos vôos da TAP), Muxagat, Monte dos Cabaços. E aí, Alex, quando é que a gente vai tomar umas taças do Quinta do Porrais. Em Sintra, ao desembarcar na estação de trem, uma surpresa agradável: um encontro com José Arno Galvão e Marilia. Pegamos o ônibus que leva à região dos castelos, batemos um papo muito agradável, e eis que o ônibus chega ao seu final. Zé Arno, cheio de gás, me diz que vai escalar o Castelo dos Mouros e depois tomar de assalto o Castelo da Pena, esse com cerca de 500 degraus. Desejo boa sorte ao casal e desisto da empreitada, mesmo porque já conhecia o esplendor do Castelo da Pena. Soube depois que Zé Arno escalou apenas o Castelo dos Mouros. Em compensação, na volta a Lisboa , fez uma homenagem bonita: descobriu na rua Eça de Queirós o Cacho Dourado e fez com Marília um brinde ao poeta Luis Carlos Guimarães, frequentador daquele restaurante. Gestos como esse são pra gente guardar. Os barcos que fazem a travessia Lisboa-Cacilhas perderam todo o romantismo. No final dos anos 60, eram barcos pequenos, abertos a todos os ventos, e permitiam que rosas fossem jogadas no Tejo, em homenagem à namorada, à mulher amada. Quis repetir o gesto ao lado da mulher casada com quem namoro e não me foi possível nenhum gesto romântico. Os barcos de hoje são enormes, velozes. E fechdos como a cara do comandante e seus auxiliares.

Conheci o poeta Ernesto Manuel de Melo e Castro em 1968, na Quadrante, a melhor livraria de Lisboa daquela época. Quarenta anos depois, fizemos um brinde à poesia, à nossa amizade, numa linda noite de outono de minha querida Lisboa.

domingo, 19 de outubro de 2008

Canto a Odette Costa Potyguara

No dia em que vovó morreu os anjos vieram buscá-la vestidos de palhaço, colombina, pierrot e pirata. Cantavam velhas marchas de carnaval.

sábado, 18 de outubro de 2008

Paris no Outono

"Sob a luz do outono Paris resplandece ainda mais. A cidade se veste de luz e vai acolhendo quem chega com carinho de amante, colares de diamante."
Nei Leandro de Castro

Poesia

Título: O Potengi Autor: Nei Leandro de Castro Esse rio é uma loucura, esse rio é um assombro, já fiz amor no seu leito com água pelos meus ombros, tendo ao lado doze botos me fazendo companhia, rindo seus risos de boto sob o sol do meio-dia. Esse rio não existe, é ilusão, pura magia. Um dia levei num barco a paixão de Margarida, o Potengi ficou doido, lambeu a mulher querida e quase que ele me afoga em treze redemoinhos, cuspiu lodo nos meus olhos, fez ondas, fez burburinho. Esse rio é tão bonito que perdôo sua loucura. Ele afoga o pôr-do-sol e corre à minha procura.