esse rio é um assombro,
já fiz amor no seu leito
com água pelos meus ombros.
(...)
Esse rio é tão bonito
que perdôo sua loucura.
Ele afoga o pôr-do-sol
e corre à minha procura."
(in Autobiografia, Nei Leandro de Castro, 2008, foto Sandra Porteous)
Eu acredito que o Rio de Janeiro ainda pode voltar a ser tão mágico quanto era na minha infância.
Uma cidade que me maltrate
de beleza e Renascença
que me dante, beatriz-me,
ponte vecchia que me convença
que a travessia é semi-eterna
como a crença.
Águas do Arno, pedras de Carrara
que um anjo chamado Miguel
seminou com um cinzel
(os escravos desse anjo louco
vão se libertar da pedra
daqui a pouco).
Uma cidade que me aponte:
Masaccio - e a emoção invada
as artérias do meu coração
como uma suave doença.
Florença.
(Nei Leandro de Castro, ilustração de Masaccio)
Vê, amada, como a lua
seduz o mar com o seu brilho
e se afasta, se afasta em silêncio,
deixando turbulências, ondas de frio,
oscilações de amor e depois
a explosão inútil das águas na areia.
O teu silêncio é lunar, menina,
viajo nele e tento recompor
- como quem recompõe uma estrela despedaçada -
os teus gemidos de gozo,
o teu sexo de menina em estertor e glória
sob o meu furor e sob a magia de tuas mãos.
Faz tantos anos, olhávamos abraçados
o coqueiro em extrema solidão de Areia Preta.
Nenhum de nós, amantes eleitos por semideuses,
poderia prever o esplendor e o abismo do silêncio
sob uma lua consagrada como o sexo
em quarto crescente.
Lua que agora se afasta,
iluminada e em silêncio e se afasta.
No início dos anos 80, fui a Roma pela primeira vez. Um amigo, muito comedido nos gastos, me alertou: uma corrida de táxi do aeroporto até o meu hotel irá custar uma fortuna. O aconselhável seria pegar um trem, que poderia me deixar no centro da cidade por um preço bem baixo. Ao chegar ao Aeroporto Fiumicino, pedi a Sandra para ficar tomando conta das malas enquanto eu ia descobrir de onde partia o trem da economia. E lá me fui, subindo e descendo escadas, entrando à direita e à esquerda, com o meu senso de direção que me faz me perder até num shopping. A certa altura, num corredor imenso, vejo um rosto que me pareceu conhecido vindo na minha direção. Quando a mulher se aproximou, tomei um susto: era Sophia Loren.
Deixei que ela passasse, dei meia volta e saí caminhando quase ao seu lado. Na época, ela estava com uns 45 anos e em plena forma. Perguntei a mim mesmo: peço um autógrafo? Não, seria melhor eu me apresentar como o cinéfilo Moacy Cirne e dizer: "Querida Sophia, eu já vi todos os seus filmes, desde "Sou o capataz", de 1950. Amei "A milionária de Milão" (1951), "A embaixatriz do amor" (1953). "Duas mulheres" ('1961)"... e ia por aí, até esgotar a lista dos filmes que ela havia estrelado.
Mas talvez ela ficasse aborrecida. Outra alternativa seria: "Bela Sophia dos meus amores, meu nome é Alex Nascimento, poeta, prosador, natalense, cheio do dinheiro e das melhores intenções. Quer passar uma noite comigo?" Enquanto eu pensava nos termos da abordagem, Sophia Loren caminhava e caminhava, até que num portão a nossa direita dois homens de preto se juntaram a
ela e a levaram para um carro que estava a sua espera. E agora? Como voltar?
Desisti do trem da economia e iniciei a viagem de volta, à procura de Sandra, mais perdido do que o presidente Lula em tiroteio. Já se passara quase uma hora desde que eu havia deixado Sandra com as malas, quando a reencontrei, muito aflita, pensando em colocar um aviso no serviço de achados e perdidos do aeroporto. Fiquei muito encabulado, inventei desculpas, não tive coragem de dizer que havia me perdido por causa de Sophia Loren. Esse segredo eu só revelei a ela 28 anos depois. Fui absolvido, por decurso de prazo.
Conheci o poeta Ernesto Manuel de Melo e Castro em 1968, na Quadrante, a melhor livraria de Lisboa daquela época. Quarenta anos depois, fizemos um brinde à poesia, à nossa amizade, numa linda noite de outono de minha querida Lisboa.