sexta-feira, 16 de julho de 2010

A presença da poesia

Numa tarde de solidão quase infinita, a poesia surgiu diante de mim, me pegou pela mão e saímos juntos. Levou-me correndo para as falésias manchadas com o vermelho desbotado do anticrepúsculo, e eu percebi claramente que a poesia tinha corpo de mulher, ternura de mulher, magia de mulher. Beijou-me na boca, despiu-se e disse que queria ser amada não como usualmente se ama a poesia, mas como se ama uma mulher cheia de desejos. A poesia tinha uma cabeleira escura, os seios apontando para o infinito e os seus lábios tremiam. Começamos a trocar carícias e eu jamais poderia imagina que a poesia fosse tão bela, tão deslumbrante, quando se despe totalmente. A poesia me lançou nardos e dardos de doçura, gemeu e os seus gemidos foram tão fortes que, a muitas léguas dali, um homem à beira do suicídio despertou para a vida e escreveu uma ode ao amor. À nossa volta, gaivotas ficaram tontas de ternura, ensaiaram vôos acrobáticos e saudaram os amantes nas alvuras e alturas das falésias com seus gritos marinhos. Depois do crepúsculo, a noite demorou a chegar porque a tarde alcoviteira queria ver mais, ver mais. Na despedida, depois de tantos embates, desses que ficam gravados na memória como tatuagens, a poesia me disse algo que me deixou preocupado, em alerta. "Se você continuar preferindo ficar muito triste" - disse ela num sussurro, numa doce advertência - "eu não o visito mais. Tristeza cansa, meu amado." E logo depois saiu dos meus braços e eu me vi no alto das falésias, na solidão mais maravilhosa que um ser humano pode conhecer. Oito gaivotas pousaram nos meus ombros, me acariciaram com os seus bicos indiscretos e em seguida levantaram vôo, talvez à procura da poesia.
(Texto de Nei Leandro de Castro, ilustração "O Beijo" de Rodin)

Um comentário:

Crônicas do Cotidiano disse...

Lindo texto...
Um beijão e bom find!