terça-feira, 15 de junho de 2010

A lua das raposas

"- Quando eu vejo a lua assim desse tamanho e todo mundo olhando pra cima e dizendo que lua mais bonita, eu não acho nada de boniteza nela, porque essa desgraçada só tem me feito sofrer, desde menino. Então, inda não contei? É bom começar do começo. Em noite de lua todo mundo sabe que corre muita raposa doida. No tabuleiro onde a gente morava, nem se fala, tinha noite que a gente matava dez, vinte raposas, juro por Deus. Muita raposa, sim. Basta dizer que nossa casa, que não tinha riqueza mas era grande, com seis quartos e muito alpendre, era toda forrada com couro de raposa. Forro no chão e na parede. Meu pai foi um grande matador de raposa doida. Pois foi numa noite dessa de lua amojada que uma raposa entrou lá dentro de casa e eu, com dois anos de idade, estava brincando e nem dei fé que a bicha vinha me estraçalhar. Só que meu pai foi mais ligeiro: pegou a bicha pelo pescoço e começou a lhe dar uns baques, cada qual o mais forte, capaz de matar um gato. Contei quarenta e duas quedas. Como? Pergunta mais besta. Então você não está cansado de saber que lá em casa com dois anos todo mundo já sabe a taboada de cor e salteado? Mas deixe contar a história ou então não conto mais. Como eu ia dizendo: depois de levar quarenta e duas quedas do meu pai, não é que a danada se fingiu de morta? Foi meu pai dar as costas pra ir buscar o facão modo tirar o couro dela, a infeliz me abocanhou bem aqui, pode ver, arrancou um naco de minha perna. Não queira nunca levar mordida de raposa doida. A desgraçada mordeu e acabou de morrer, também com tanto baque, né? Mas deixou a ferida saindo sangue de seringada, me lembro como se fosse hoje. Nisso o meu pai, com licença da palavra, verteu água em cima do sangue, que é o melhor remédio pra mordida de raposa doida. Tive febre de quarenta graus quase um mês, minha mãe já pensando que não ia me criar. Escapei, tou aqui vivinho contando a história, mas não gosto de lua cheia, sabe por quê? Toda vez que a lua fica grandona assim, a ferida da perna se dana pra doer, me dá febre, formigamento no corpo, zoada nos ouvidos e uma vontade danada de sair pelos tabuleiros matando galinha de dentada.
- Mentiroso!
O galego Assis levantou-se da cadeira tão ágil quanto uma raposa:
- É a puta que pariu!"
(texto de Nei Leandro de Castro in O dia das moscas, foto de Mário Meir)

2 comentários:

IMaria disse...

giríssimo o texto que não conhecia.

Anônimo disse...

simplismente a melhor parte do livro. consigo até imaginar os detalhes. :D muito bom Nei Leandro de Castro