terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O sortilégio do mar

Vou fugir de mim mesmo.
Refugiar-me na sombra do mar.
Vou morar no seu silêncio
e beber meu olhar de sono
nas calçadas que perfuram o mar.
Levarei comigo
um piano cheio de escuro.
***
Quero sentir o frio horizonte
que se estende sobre o mar.
Fender meu corpo de disfarce
na luz que ilumina os frutos do mar.
Quero que me limitem entre os círculos,
azuis ou verdes, e a imagem
do crepúsculo, incendiado no mar.
Arqueadas estão as minhas mãos
nas suas redes, de súplica,
sossobradas. Mar,
espelho irremediável
de solidão, refletindo as faces
descomunais da minha única face
translúcida.
(Poema de Sanderson Negreiros in Fábula Fábula, foto de Sandra Porteous)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Caldo de cabeça de peixe

Lave a cabeça, esfregue com limão
e ponha em caldeirão de bom tamanho.
Acrescente dois litros d'água fria
com tomates, cebola, cebolinha.
***
Azeite, sal a gosto, coentro e salsa
vão completar a parte dos temperos.
Cozinhe em fogo leve, reduzindo
o caldo até ficar pela metade.
***
Passe por um coador o caldo quente,
nele despeje o molho de pimenta
e cachaça de boa qualidade.
***
Esta receita faz o casamento
perfeito da cachaça com o peixe,
que nunca poderão ver-se apartados.
(Poema de Celso Japiassu e Nei Leandro de Castro in 50 Sonetos de Forno e Fogão, ilustração de Di Cavalcanti)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Uma viagem no tempo

Os limites da cidade iam até a Avenida 15 (Bernardo Vieira), onde havia um posto fiscal, chamado Corrente, que fiscalizava saídas, entradas e bandeiras. A pista de asfalto, construída pelos americanos durante a Segunda Guerra Mundial, serpenteava entre dunas, silêncios e verdes até Parnamirim. Os outros limites, a leste e oeste, tinham mais esplendor: o rio Potengi e o mar de águas mornas.
Nas marés altas, os botos vinham brincar nas águas do Potengi. Nas marés cheias de medo, diziam alguns, os cações faziam expedições, furiosos, famintos, cortando as águas com a lâmina de suas barbatanas. Os meninos pescavam morés, pulavam da Pedra da Chapuleta ou desafiavam os cações, fazendo torneios de cangapés no meio do rio.
O mar era um latifúndio azul-turquesa ao alcance de todos. Perto da Fortaleza dos Reis Magos, estrela dos lusíadas, pétrea sentinela, havia o Poço do Dentão, com suas grutas, seus mistérios, sua inexplicável profundidade à beira-mar. Itamar, que depois seria personagem de romance, jurava de pé junto: numa das grutas do poço, havia um tesouro escondido pelo pirata Riffault. Todos os dias, os meninos pobres mergulhavam à procura da arca cheia de ouro e pedras preciosas. Viviam desse sonho.
Perto da Rua da Estrela, morava uma viúva sem filhos, jovem e bonita. Não saía de casa, não cumprimentava ninguém, não devolvia a bola que caía nos seus domínios. Numa tarde, os meninos olhavam pelas brechas do portão, em busca de mais uma bola perdida, quando surgiu um daqueles alumbramentos de que fala Manuel Bandeira. A viúva brincava com seu cachorrinho, dançando e levantando a saia para o animal, que corria à sua volta. As coxas eram roliças e a calcinha, ai!, era de cor clara. Naquele dia, houve jogos olímpicos em homenagem a Onan.
Nas matinês do cinema Rex, nossos sonhos cavalgavam na garupa do cavalo do Zorro. Ajudávamos o herói a esmurrar o vilão e também queríamos beijar a mocinha, mas isso o amigo de máscara negra não permitia. Tão difícil quanto beijar a namorada do herói dos seriados era beijar a namorada de verdade. O namoro tinha suas regras rígidas: com duas semanas, ela permitia pegar na mão; com três semanas, um beijo no rosto; com um mês, um beijinho na boca, mas nada de prospecções de língua. A mocinha que permitisse mais do que o estabelecido corria o risco de ficar falada.
Bons tempos, mesmo com essas restrições. As ruas descalças, o rio, o mar, os vastos espaços nos levavam a descobertas, aventuras, saudáveis estripulias. Desde cedo, os meninos aprendiam a desafiar perigos. Havia mendigos valentões, que odiavam os seus apelidos e poderiam ferir gravemente um daqueles pirralhos com uma pedrada certeira ou um murro no pé do ouvido. Mas nenhum mendigo podia passar perto da turma, sem ouvir o seu apelido gritado em coro. "Caju Azedo! Cadê a castanha?", ele dizia que as nossas mães, coitadas, guardavam a castanha num lugar muito reservado lá delas... Ah, Natal da minha infância, gaveta de sonhos, território das minhas grandes amizades.
(Crônica de Nei Leandro de Castro in Rua da Estrela, foto do Forte dos Reis Magos de Sandra Porteous)

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Manhã de verão

No retângulo da sala
as paredes brancas
em pintura de cal
recente. Mais brancas
na semeadura de luz
da manhã de verão
em dezembro. Tão de luz
castigada que o antes
transparente ar, denso,
inunda o espaço: bloco
de peso não medido:
claridade prisioneira
entre teto e piso
e paredes da sala:
ar e luz palpáveis
em serem compactos
na vertigem do sol:
dezembro, dezembro.
(Poema de Luis Carlos Guimarães in A Lua no Espelho)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Soneto 11 de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
***
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder
***
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
***
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Soneto 11 de Luiz Vaz de Camões, ilustração O Beijo de Rodin)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Diário de Florença

Os trens da EuroStar que ligam Roma a Florença não são TGV, mas desenvolvem até 220 quilômetros por hora. A partir de Roma, em pouco menos de duas horas esses trens nos deixam na estação de Florença, que fica bem próxima à belíssima igreja de Santa Maria Novella. Essa igreja, cujos sinos nos despertam às sete da manhã, guarda entre outras preciosidades um crucifixo de Giotto (1266-1337) e um afresco de Masaccio (1401-1428). A estação também fica perto de bons hotéis, restaurantes e trattorias. Numa caminhada de dez minutos, sem pressa, chega-se ao Hotel Aprile, onde nos hospedamos pela primeira vez em 1986. Começa então uma sucessão de dias de prazer, de deslumbramento, de descobertas e redescobertas. A primeira providência é deixar as malas e caminhar pela Via della Porcellana, uma ruazinha estreita que leva à margem direita do Arno. Dessa vez não vi o grupo de prostitutas fellinianas que fazia ponto por ali - duas delas até já me cumprimentavam. Das cinco que compunham o time em outros tempos, resta uma, meio sambada, já passada dos quarenta nos, mas ainda cheia de amor para alugar.
Andar pelas margens do Arno é um grande, grande prazer. O pôr-do-sol, visto da ponte Vecchio, só perde mesmo para o banho de ouro que o sol da terra de Poti mais bela dá todos os dias no Potengi. O Arno corre tranqüilo, parece domesticado, preso entre grossas paredes, mas já mostrou a sua fúria espantosa. Em 1966, o rio inundou Florença, invadiu museus, prédios renascentistas, igrejas seculares, destruiu preciosidades. Na igreja de Santa Croce, as águas atingiram cinco metros de altura e fizeram grandes estragos em sua nave cheia de obras de arte. Um crucifixo do mestre Cimabue (1240-1302), até hoje não restaurado, é exibido como testemunha da tragédia. Desde então, qualquer chuva mais forte assombra os florentinos.
A gente só tem a aprender quando caminha pelas ruas estreitas e pela história de Florença. A Piazza della Signoria reúne multidões. Ali, um círculo de mármore sobre o calçamento marca o local onde Savonarola, um padre dominica cheio de som e fúria, foi morto na foguera, em 1498. Mais adiante, o Perseu de Benvenuto Cellini (1500-1571). Para atingir o calor necessário à fundição dessa escultura, Cellini confessa em suas memórias que tocou fogo na própria casa. Bem perto do Perseu, que está segurando a cabeça da Medusa, ergue-se o Galleria degli Uffizi, uma das maiores concentrações de arte do mundo. Pena que as filas para a entrada se estendam por quilômetros, mas vale a pena esperar algumas horas e se extasiar diante de séculos de arte. O Nascimento de Vênus, de Boticelli, lhe dá as boas-vindas.
A culinária de Florença é outra atração. Os risotos são divinos. A vitela e o cordeiro são os pratos mais saborosos da Toscana. Os garçons não são abusados como os romanos e os donos de trattorias vêm com freqüência à nossa mesa. Um deles, ao perceber que éramos brasileiros, disse que tinha sido amigo íntimo do jogador Sócrates, o maior bebedor de cerveja que Florença conheceu.
(Crônica de Nei Leandro de Castro, in Rua da Estrela, foto de Sandra Porteous)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Lapa

O bonde passa
pelo espinhaço
dos arcos.
Mas não é o seu peso
que esmaga
a prostituta lírica
que procura nas cores
do ruge e do batom
a feérie da Lapa
onde ela estreou
numa noite mágica
que ainda hoje
é o que detém a sua mão
de dedos crispados
nos gumes da gilete.
(Poema de Nei Leandro de Castro, óleo s/tela de Sandra Nunes)