terça-feira, 5 de julho de 2011

Narciso (Mitologia Erótica 3)

Narciso só tinha olhos
para o seu rosto perfeito
e tremia de tesão
pelo seu corpo de macho.
Numa manhã de verão
Narciso se viu na fonte
e quis beijar os seus lábios
e afogar-se em desejos,
enquanto uma cotovia
- o coraçãozinho aos saltos -
se balançava e cantava
entre ramos de narciso.
(Poema de Nei Leandro de Castro in Era uma vez eros, tela de Caravaggio)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Virtual

Estou nua, devassa, nua
diante do computador.
Sorrio, sussurro, solto gemidos:
estão de plantão, tesão,
todos os meus sentidos.
Já namorei pela telinha, bem louquinha,
muitos machos divinos maravilhosos,
ternos, safados, sacanetas
todos com fixação em minha xotinha,
na minha bundinha, nas minhas tetas.
*
Ah, vou sair, vou fazer logoff.
Chega, rapazes, não quero mais nada.
O mal desse sexo virtual
é que me lembra muito uma broxada.
(Poema de Nathália de Souza in
Poemas Devassos e uma Canção de Amor,
tela de Milton da Costa)

domingo, 3 de julho de 2011

A dádiva do encontro

No caos em que estão mergulhados os meus livros e papéis, encontrei uma preciosidade que julgava perdida: uma pasta contendo 12 poemas manuscritos de Carlos Drummond de Andrade, assinados pelo autor, e uma cópia xerox de um cheque do Itaú, no valor de 21.848,44 cruzados, datado de 5 de setembro de 1986. O cheque é nominal e o favorecido é Drummond. Por trás desses dados e números, há a história de um encontro a que já me referi algumas vezes. Hoje, depois de uma releitura do meu poeta brasileiro preferido, me vieram à lembrança, como num filme, todos os momentos que usufruí na sala do seu apartamento, numa rua de Copacabana. E me deu vontade de reviver esses instantes, sem receio de ser repetivo.
*
Costumo dizer que o encontro com Drummond foi o maior prêmio que a publicidade, em 30 anos de trabalho, me deu. Foi, sim. No segundo semestre de 1986, eu era vice-presidente de criação de uma agência de propaganda do Rio de Janeiro. Um dos nossos maiores clientes solicitou uma idéia ousada, de impacto, para o seu calendário de 1987. Depois de reuniões com o pessoal de criação, surgiu a idéia de um calendário com poemas inéditos de Carlos Drummond de Andrade. "Vocês estão voando muito alto, aterrissem, aterrissem", brincou o diretor-presidente da agência. Mas me deu permissão para ir adiante, sondar o poeta, saber se a idéia era viável.
*
Consegui o telefone de Drummond, fiz a ligação, falei do projeto da agência. Sem arrodeios, ele disse que achava boa a idéia, que escreveria os poemas. Quando perguntei quanto custaria o seu trabalho, ele disse: "Isso eu não sei dizer. Por favor, procure saber quanto pagam e me ligue quando souber." Consultei o diretor-presidente, chegamos a um acordo, voltei a ligar para Drummond. Ao ouvir o preço, o poeta disse, com voz alterada: "Quanto?" Repeti, temendo que estivesse aviltando o seu trabalho, mas ouvi dele: "Claro que faço. Nunca ganhei tanto dinheiro com poesia!"
*
Seriam doze poemas baseados em fotos fornecidas pela empresa. Fiz questão de levar as fotos ao apartamento do poeta, à rua Conselheiro Lafayette, 60/701, Copacabana. Um apartamento simples, imensamente enriquecido por quadros de Portinari, Di Cavalcanti, Pancetti, Cícero Dias. Em destaque, um retrato de sua filha Maria Julieta por Portinari. O poeta devia estar sofrendo muito de saudade, porque a conversa girou quase toda em torno de sua filha, que morava em Buenos Aires, com quem ele trocava cartas duas vezes por semana. A certa altura, Drummond se levantou, me pediu para acompanhá-lo e me mostrou o imenso baú onde guardava as cartas da filha amada. Era uma montanha de saudades, de declarações de amor.
*
Uma semana depois, fui buscar os poemas que ele havia escrito e levar o cheque de pagamento. Nessa manhã, ele falou sobre poetas, principalmente sobre Vinicius de Morais, de quem admirava a obra poética e os seus grandes amores. Mesmo provocado, não quis falar dele mesmo, nem de sua poesia. Mas ainda falou da filha e as lágrimas vieram a seus olhos. Esse encontro se deu em 5 de setembro de 1986. Em agosto do ano seguinte, Maria Julieta morreu. Aos 85 anos, o poeta suspendeu os remédios que controlavam a sua cardiopatia e, doze dias depois, 'se afastou da vida voluntariamente'.
(Crônica de Nei Leandro de Castro publicada na Tribuna do Norte)

sábado, 2 de julho de 2011

ABC da Morte de Federico Garcia Lorca

Surpreendo do teu bolso
armas com que te bateste:
as vogais e as consoantes
- em ti adaga e florete.
*
Ai, Federico Garcia,
Bateste o punho fechado
Contra as portas de la muerte
De repente entreabertas.
*
Estavas talvez com medo
Federico, pois querias
Guardar apenas da morte
Heras - horas - em que prendeste
*
Ignazio Sanches Mejías.
Jamais supuseste a morte
Literal, dentro dos canos,
Morte madrugada a dentro.
*
Não sei da rosa de espanto,
Ó Federico, que viste,
Pois não percebo o minuto
Quando mortal tu caíste.
*
Recolho de tuas mãos
Sujas de barro e de sangue
Tua última metáfora:
Uma rosa que ainda cresce.
*
Surpreendo do teu bolso,
do suprarreal colete,
as vogais e as consoantes
- em ti adaga e florete.
(Poema Nei Leandro de Castro in Canto Contra Canto, ilustração Salvador Dali)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Um amor em Natal

Um amor que me lesse poemas
quando meus olhos glaucomatosos
exigissem minutos de silêncio.
Um amor que me levasse às falésias do sol
e lá de cima, tonto de anticrepúsculo,
me pedisse carícias duras quase impuras
e mais: penetrações.
Um amor que me escrevesse
trinta e uma vezes e mais trinta
toda vez que eu fugisse dos seus braços
para cumprir a penitência dos malditos.
Um amor que acompanhasse revoadas de santos
sobre a fortaleza, sobre o Potengi,
sobre o meu peito, a partir do santuário do seu sexo.
(poema de Nei Leandro de Castro in Autobiografia)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Rua da Estrela

Vésper vinha se banhar
nas poças d'água da rua.
E quando a chuva era forte
cresciam as colisões
dos dez barcos de papel
navegando o meio-fio.
No casarão à direita
quase esquina com Apodi,
os pastoris encantados
do velho Miguel Leandro.
Um poeta, quase padre,
viveu nesse casarão
e fez fábula, fábula, fábulas
de palavra e cantochão.
O capitão Marranegra
mandava baixar o braço,
sofria mais que gritava,
fazendo papel de fraco.
Rua descalça, de areia,
território de batalhas,
meu reino para a menina
levantar a sua saia.
***
Se essa rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
voltava a ser da Estrela
e não José de Alencar.
(Poema de Nei Leandro de Castro in "Autobiografia)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Morcegos e outros bichos

Os dicionários não registram a expressão "pegar morcego", ou seja, andar pendurado nos estribos dos bondes, em ônibus ou caminhões, sem pagar ou sem autorização de quem conduz os veículos. O Aurélio registra "morcego" como o garoto que usa esse recurso. Errado, mas deixa pra lá. Afinal de contas os bondes já sumiram em quase todo o país (à exceção dos líricos bondes do bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro) e a velocidade dos ônibus e caminhões de hoje não permite que alguém se arrisque numa carona tão perigosa. No meu tempo, no tempo de Alex Nascimento, pegar morcego era uma das grandes aventuras de um pré-adolescente. Na subida da ladeiro do Baldo, o bonde tinha sua velocidade reduzida. Aí a turma se aproveitava para viajar de graça até pouco antes da rua Apodi, quando a velocidade do veículo voltava ao normal e uma descida do bonde em disparada poderia trazer problemas. O cobrador era mal-encarado e cruel. Perseguia os morcegueiros de maneira implacável, distribuía cascudos, gritava palavrões, mas não tinha jeito. No dia seguinte, a turma estava lá, concentrada no lugar onde o bonde subia a ladeira gemendo e chorando, para ser invadido em seus estribos. Essa era uma das diversões que o Baldo oferecia. A outra era o rio das lavadeiras, de onde Alex Nascimento não arredava pé, à espera de uma lavadeira mais distraída que mostrasse um palmo de coxa ou um vislumbre de seio. Sempre na companhia de um galego chamado Onan, Alex se escondia nas moitas à beira do riacho e fazia a festa.
***
Não dava para pegar morcego nos poucos carros que existiam em Natal. E os meninos pobres sonhavam com um passeio de carro ou um desfile de carnaval, pela Deodoro, a bordo de um daqueles luxos. Numa tarde, no meio de uma pelada, um carro atolou no areal que era a rua Apodi, à altura da rua da Estrela. O motorista propôs um acordo: se a turma desatolasse o carro, ele daria um passeio com alguns dos meninos. Foi uma algazarra. Em poucos minutos o carro estava livre e o dono, um homem rico, que depois faria carreira como político, arrancou com crianças nos estribos (sim, os carros tinham estribos) e no pára-choque traseiro. Todos saltaram, com exceção de Miguel Leandro Netto, o Miguelzinho, que logo depois se desequilibrou e caiu com a cabeça no chão. Miguelzinho desmaiou e o político seguiu sua carreira. Desde esse dia, decidi que jamais pegaria carona com político.
***
No território descampado da infância, a caça aos pombos era uma aventura com menos riscos do que pegar morcego em bonde ou confiar em promessa de político. O seu Petit, que morava na Princesa Isabel com a Apodi, criava pombos que faziam revoadas sobre nossas cabeças. Um dia, um menino do interior disse que a carne de pombo era muito boa, bem melhor do que a das rolinhas abatidas pela turma sem piedade. Um pequeno exército se armou com baladeiras e foi declarada guerra às avezinhas de seu Petit. Foi um descalabro de tiros certeiros e a hipótese foi confirmada: a carne de pombo era uma delícia. Muitos anos depois, num restaurante de Lisboa, pedi um pombo com recheio de amêijoas. Comi de joelhos, ao pé de uma musa de olhos verdes chamada Esmeralda. Uma das melhores comidas da minha vida.

(Crônica de Nei Leandro de Castro)