segunda-feira, 5 de março de 2012

Cavaco Chinês II


Eu e meus irmãos Euclides e Berilo resolvemos aumentar a nossa limitada renda, fazendo uma fezinha no jogo do bicho, na venda do seu Calixtrato Batista. Jogando no burro, 05, e à tardinha saiu o resultado: 06, cabra. Tive a idéia de transformar o 05 em 06, o que fiz com muita habilidade. Os meus irmãos foram buscar o dinheiro do prêmio e seu Calixtrato não desconfiou de nada. Foi farra muita: sorvete, chocolate, guaraná, cinema, gibis, essas coisas boas da vida. No dia seguinte, os bicheiros descobriram a farsa e seu Calixtrato foi falar com meu pai. O velho capitão devolveu o que era devido, pediu desculpas ao comerciante e depois acertou as contas com os filhos. Ainda hoje rendo graças à nossa punição exemplar. Do contrário, eu poderia ser um distribuidor de uísque Old Stroessner, made in Paraguai. Ou um político com a pasta entupida de mensalão e contas em paraísos fiscais. Ou ainda o mestre-salas da Unidos da Corrupção, em rodopios no plenário da Câmara com a porta-bandeira ângela Jaburu.
(Texto de Nei Leandro de Castro in Rua da Estrela Crônicas, quadro de Rosangela Borges)

sábado, 3 de março de 2012

Cavaco-chinês

Pela rua Professor Zuza, a caminho do Sebo Vermelho, vi passar um vendedor de cavaco-chinês, tilintando o seu triângulo de aço. Comprei uns cavacos, dei uma mordida daquelas de menino guloso, e aí começaram a surgir lembranças da minha infância, em enxurradas, como ocorreu com Marcel Proust ao provar sua "madeleine". Apressei o passo, já pensando em acertar com Abimael Silva a edição dos sete volumes do meu romance autobiográfico. Mas ao chegar na avenida Rio Branco as minhas lembranças já estavam embaralhadas e diluídas. Comi o resto do cavaco-chinês, que não surtiu o efeito desejado, apenas me deu sede, frustração. As memórias da infância que se salvaram não ocupam duas laudas digitadas, mesmo assim vou colocá-las no papel, enquanto espero outra avalanche à maneira de Proust. Da próxima vez, pretendo experimentar grude de Estremoz como detonador de memória. Enquanto espero, ponho à mostra o que se salvou provocado pelo gosto de infância do cavaco-chinês.
***
Meu tio Miguel Leandro era tabelião em São Jósé de Mipibu. De vez em quando eu passava férias na sua casa, que ficava em frente a uma praça grande, com coreto, onde à tardinha as meninas passeavam numa direção e os meninos no sentido inverso. Era a passeata do flerte. Havia os olhares compridos e pidões dos pequenos machos e olhar dissimulado das fêmeas em flor. Elas também usavam um risinho baixo, com as mãos escondendo os dentes, e as mais ousadas sacudiam os cabelos, em gestos sensuais que lembravam as artistas de cinema. Zizi era a minha favorita por duas razões: sacudia os cabelos como ninguém e tinha sotaque carioca. Foi difícil, valeu uma peregrinação em torno da praça que talvez superasse os quilômetros do Caminho de Santiago, mas consegui chegar a Zizi. Ela não tinha tia: tchinha tchitchia. Pronunciava djia, noitche e outros sons que soavam como música aos meus ouvidos de apaixonado. No terceiro dia de namoro, Zizi me perguntou se eu tinha bicicleta. Gaguejei um pouco e disse: "Meu padrinho Dinarte me prometeu uma bicicleta como presente de aniversário de 15 anos. Só faltam três anos." Zizi deu uma risada e até o seu riso tinha sotaque do Rio de Janeiro. Mesmo debochado, era um riso lindo. Deu as costas, foi embora e no dia seguinte eu a vi pedalando a bicicleta de um concorrente meio abusado.
(Texto de Nei Leandro de Castro in Rua da Estrela Crônicas)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tango


Esta noite é mais do que noite. É noche.
E não admito, corazón, que haja deboche.
(Poema de Nei Leandro de Castro in Musa de Verão, foto autor desconhecido)

quinta-feira, 1 de março de 2012

Vendedor de Pássaros


Ao pássaro, o homem
(animal sem respeito)
não dá o direito
de escolha
entre o alpiste
e o não ser triste.
(Poema de Nei Leandro de Castro in Feira Livre, foto autor desconhecido)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Registro


Na tarde que arde
se a mulher disser: Aldebarã
vinte e sete mágicos
poetas e saltimbancos
correrão à procura de estrelas
que enfeitarção seu colo
dourado pela tarde.
(Poema de Nei Leandro de Castro in Diário Íntimo da Palavra, foto de Sandra Porteous)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A velhice de Eros

O velho Eros está muito cansado,
até mesmo dos versos decassílabos.
Inclusive a palavra inclusive
tão mal-usada dói-lhe nos testículos.
**
Nos sonetos, com rima ou sem rima,
torra-lhe o saco - enorme - o enjambement,
uma invenção, acha ele, de poetinha
embolado e seboso. Poetastro
**
O velho fauno já tem cinquenta anos,
quinhentos, cinco mil, perdeu a conta,
perdeu toda a memória mitológica.
**
Mas guarda, essa figura de Aretino,
a memória feliz de suas fodas
e a soma dos pentelhos das amantes.
(Poema de Nei Leandro de Castro in Era uma vez Eros, ilustração Fauno de Barberini)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Poema


De tuas palavras
nasceram abismos.
A estrela do meu sonho indivisível
veio de espaços
e rolou por vertentes do obscuro.
Da terra que tornaste túmulo
surgiram flores amarelas
com raízes de luzes milenárias.
(Poema de Nei Leandro de Castro in O Pastor e a Flauta, quadro de Monet)