sexta-feira, 10 de julho de 2009

Canção de Outono

Os soluços finos
Dos violinos
Do outono
Ferem meu peito
Fico desfeito
E tenho sono.
(trecho do poema Canção de Outono de Paul Verlaine traduzido por Nei Leandro de Castro, foto Sandra Porteous)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A Fortaleza dos Vencidos

De repente, sem nenhum aviso, o céu ficou escuro como os cabelos pintados da madame Cibele. Ela comparou a formação de nuvens com as tempestades interiores que a assaltavam de vez em quando, que estavam começando a inquietá-la. A chuva desabou sobre o mar e foi chegando, bela e assustadora. Os moleques que tomavam banho na praia saíram da água, tentando fugir, mas a chuva os alcançou e bateu em suas cabeças com pingos duros como cascudos. Já era tempo de chover, pensou madame Cibele, o calor estava de derreter o juízo,ao sol do meio-dia fritava-se carne de sol no calçamento.
(trecho do novo romance de Nei Leandro de Castro A Fortaleza dos Vencidos, foto Sandra Porteous)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Maternidade

(foto Sandra Porteous)

domingo, 5 de julho de 2009

Bolero

O amor se refletia
nos olhos claros da amante
em chamas de desespero
em clarões de diamante
na noite escura, absurda
infinita e agonizante.
(trecho do Bolero in Diário Íntimo da Palavra, Nei Leandro de Castro, foto Sandra Porteous)

sábado, 4 de julho de 2009

O Fígado do Jaguar

Em homenagem aos 50 anos de arte e boemia do cartunista JAGUAR.
Eu não quero os milhões que Maluf
malufou nos bancos da Suiça.
Não quero Camila Pitanga me dando colinho
até que eu fique com sono e com preguiça.
Eu não quero Deborah Secco molhadinha
sem calcinha, de fardinha escolar.
Eu quero, por favor, eu quero tanto
ter um fígado como o do Jaguar.
Não quero ter a mangueira do bombeiro
que apagou o lume da Oliveira.
Não quero estar na cama com Gisele
e o DiCaprio só filmando, de bobeira.
Não quero os milhões do Ronaldinho
nem a Juliana Paes para ser meu par.
Eu quero, por favor, eu quero muito
ter um fígado como o do Jaguar.
Eu não quero os poderes do Obama
nem o avião de marajá do presidente Lula.
Não quero brincar com Angelina Jolie
de mexe-mexe ou de pula-pula.
Do brigadeiro eu não quero o céu,
do almirante eu não quero o mar.
Meu amigos, meus inimigos, eu quero
ter um fígado como o do Jaguar.
Nei Leandro de Castro (foto Sandra Porteous)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Anotações de leitura

"Que há de mais extravagante do que adular covardemente o povo para ser benquisto, comprar seus favores por liberalidades, buscar com ardor o aplauso de tantos loucos, embriagar-se com tantas aclamações tumultuosas, deixar-se levar em triunfo como as imagens dos deuses ou fazer-se elevar como estátua em meio ao mercado para ser visto pela populaça? Esses nomes, sobrenomes, todas essas honrarias divinas prestadas a gente que não merece sequer o nome de homens, todas essas apoteoses públicas em favor dos tiranos mais odiosos, todas essas coisas, dizem os filósofos, não são loucuras ridículas que deveriam ser sempre desprezadas?"
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"Ora, o que é a vida? É uma espécie de comédia contínua em que os homens, disfarçados de mil maneiras diferentes, aparecem em cena, desempenham seus papéis, até que o diretor, depois de tê-los feito mudar de disfarce e aparecer ora sob a púrpura soberba dos reis, ora sob os andrajos repulsivos da escravidão e da miséria, força-os finalmente a sair do palco. Em verdade, este mundo não é senão uma sombra passageira, mas assim é a comédia que nele representamos todos os dias."
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"A verdadeira prudência consiste, já que somos humanos, em não querer ser mais sábios do que nossa natureza permite."
(in Elogia da Loucura, Erasmo. Foto Sandra Porteous)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Salve, Rainha

Claro enigma do poeta.
Brisa. Vento. Ventania
que enlouquece o rei,
o fauno, o ermitão.
Caixa de segredos
entreaberta somente
quando decifrados
os códigos do coração.
Nobre, suave, dama,
na cama se derrama,
veste fantasias,
cria e recria o gozo
e o põe numa redoma.
Inventa idiomas.
Se diz aos gemidos,
aos teus ouvidos:
- Mar!
pode ser outra língua
que convém ao súdito
decifrar.
(in Diário Íntimo da Palavra, Nei Leandro de Castro. Foto Sandra Porteous)