segunda-feira, 16 de maio de 2011

Madrigal

De binóculo
vejo a melancolia
da menina
que perpetra poesia.
Mas de que gosto mesmo
é de sua calcinha branca
como um papel intocado
que vislumbro
quando ela cruza as coxas.
Sob a calcinha
uma flor de pétalas roxas.
***
E onde fica a melancolia
da menina e sua poesia?

(Poema de Nei Leandro de Castro in Musa de Verão, ilustração de Edgar Degas)

sexta-feira, 13 de maio de 2011

A Menina do Pombo

Porque as mãos,
embora suaves
(duas conchas de pluma),
anulam as asas,
os olhos dão
a líquida ternura
da menina
ao pombo.
Porque a infância
além da moldura
se desprenderá
em busca do vôo,
os olhos da menina
são fontes onde
é suicida
o pombo.
(poema de Nei Leandro de Castro in Voz Geral, ilustração de Picasso)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Correspondência

Na adolescência li "A Barca de Gleyre", um livro volumoso que reúne as cartas de Monteiro Lobato e Godofredo Rangel ao longo de muitos anos. A leitura me fascinou e talvez seja essa a origem da paixão que tenho pela correspondência. Já troquei ceentenas de cartas e só lamento ter rasgado as cartas das primeiras namoradas, das paixões desesperadas, dos amores perfeitos e imperfeitos. Mas tenho bem guardadas cartas de dois dos meus maiores ídolos: Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava.
Com a internet, a correspondência ganhou velocidade, mas perdeu em essência. Já não se escrevem cartas como antigamente, tudo ficou muito apressadinho, superficial, sem a beleza e o calor de antes. Mesmo assim, continuo tentando me corresponder, mandar e-mails, esperar o retorno que quase sempre não acontece. Está cada vez mais difícil manter uma correspondência, mesmo entre aqueles que são do ramo. Moacy Cirne, por exemplo, me manda uma média de quatro e-mails por semestre, o que não é pouco se comparado com Tácito Costa, que me manda, quando inspirado, um e-mail por ano. Os mais assíduos dos meus correspondentes são Homero Costa, que não falha, não atrasa, apesar dos seus afazeres de professor universitário; Geraldo Batista esta sempre me enriquecendo com suas tiradas de humor e demonstrações de amizade; o poeta paraense Pedro Galvão me envia com frequência e-mails longos, bonitos, poéticos. Até quando, não sei. A tendência, pelo que sinto, é a mensagem ficar cada vez mais curta, concisa, com o uso daquela abreviaturas ridículas como tb, abs, vc.
Às vezes, a correspondência via internet é invasiva, maldosa, prejudicial. Bom mesmo é saber que uma carta que digito para um amigo que mora em Lisboa, leva segundos para chegar às suas mãos. Bom é saber que a natalense Dália Wilcinski está muito bem na Califórnia, usando o seu talento, fazendo cursos, vivendo intensamente. E é sempre agradável receber notícias de Currais Novos, que me chegam com os bons poemas e a boa prosa de Maria Maria Gomes. De Caicó vêm voando as notícias de Oberdan Damásio, um grande e generoso amigo.
De vez em quando, um desconhecido entra na telinha. Recentemente recebi o e-mail de um certo Araújo. No espaço do assunto ele escreveu: "Estou morrendo de paixão! Socorro!" Era algo patético. Dizia o remetente: "Há uma semana, conheci uma garota de 25 anos, por quem me apaixonei nos primeiros vinte minutos de conversa. A beleza do rosto, as linhas do corpo, a sensibilidade, tudo nela me seduziu de uma maneira incrível. Perguntei o seu nome e ela respondeu com um sorriso lindo e debochado: "Dualiba, mas pode me chamar de Duá." E deu uma bela risada. Só me restou dizer que casaria com ela anteontem, que a levaria para a Grécia, para Honolulu, para a Polinésia Francesa. A bela sacudiu os ombros e disse: "Só quando você se transformar em Ojuara." "Depois de ler o seu romance, diz Araújo, "é que entendi o que Duá quis dizer. Por favor, o senhor pode me transformar em Ojuara?"
(Crônica de Nei Leandro de Castro in "Rua da Estrela - Crônicas")

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Lorquiana para a Feira de São Cristóvão

O sol de domingo explode
sobre um chão de alpercatas,
nas cabeças nordestinas,
no sal da carne-de-sol.
O pregão em voz cantada
vende também a saudade:
dor de espinho aprofundado
no peito de cada um.
O sarapatel servido
tem um cheiro de Alecrim
e no seu molho sangrento
bóiam vísceras cortadas,
um sabor tão sertanejo
que se mistura à farinha
e se mistura à cachaça
bebida de talagada.
O couro curtido espalha
mais um odor pela feira.
Este espaço não é Rio.
A legião de mascates
vinda do chão do Nordeste
conquistou o território
e nele cravou bandeiras
com brasões de jerimum.
São Cristóvão aos domingos
veste roupa de vaqueiro
toca viola, rabeca,
desafia em versos simples
quem gosta de pelejar.
Tem a peleja do Cão,
da moça que virou cabra
e dos heróis domingueiros
que procuram desafio,
só pra derrubar o medo
de não voltar à terrinha.

(Poema de Nei Leandro de Castro, ilustração autor desconhecido Galeria da Feira de São Cristóvão)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Feijão Tropeiro

Nas estradas de Minas se criaram,
ao sabor do improviso, muitos pratos
que honram a cozinha brasileira.
Este feijão famoso é bom exemplo.
***
Cozinhe os grãos somente n'água e sal,
cuidando que eles fiquem meio duros.
Leve o toucinho ao ponto de torresmo,
depois frite a linguiça na gordura.
***
Numa panela à parte, frite os ovos,
ponha cebola, sal, pimenta e alho,
misture os ingredientes com farinha.
***
Se o seu colesterol está em alta,
convém fugir correndo do tropeiro,
embora valha a morte em gozo extremo.
(Celso Japiassu e Nei Leandro de Castro in 50 Sonetos de Forno e Fogão)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A canção de amor

O amor implode e a explosão
vai direto ao coração, para multiplicá-lo
como os pedaços de metais de uma granada,
romã caindo sobre um pátio de colégio
de freiras, numa sacrílega manhã.
O amor. Não procure apreendê-lo de estalo.
O amor, eu o fecundo nas trompas inflamadas
da mulher amada que está gritando
todos os plurais em ais.
Só o amor faz escrever versos de amor
e na prisão, a pão e água estagnada,
alguém prende aquela triste e leda madrugada
nos dedos. A rima dos versos é uma água no cio
que nasceu para ser cavalgada, emparelhada.
Parênteses: de repente dá vontade
de escrever: berceuse. Ou de dizer: boceta.
O amor está presente e se insinua
como o desejo de uma mulher grávida
que quer comer sua placenta crua.
O amor, coitado, sempre foi rosa nos versos
dos adolescentes com febre de sonetos
mas na minha canção, não,
ele jamais será tratado como tal.
Prefiro a paz nas alturas de uma nave espacial.
O amor está feliz numa sarjeta
e chafurda na poça que não reflete nada:
os pombos do poema há muito já se foram,
morreram de velhice, e a lua é uma frase de efeito
que já não brilha. O amor se basta em sua lama
e basta. O amor rompeu com a tirania lapidar
e quer somente cumprir o seu destino de semente,
um grito amargo, lisérgico, com contra-indicação
para os tiranos e os alérgicos.
O amor retumba na cabeça e é dor ciática, reflexa,
que intumesce a glande e cora os grandes lábios.
De repente, o amor se aninha entre lençõis
e já não dói. Mas é preciso guardar a sua chama
para o amor não esfriar como lábio do morto
ou o lado direito da cama onde pousou
o corpo de quem ama, o corpo de quem ama.
O amor do outro lado
está desintegrado em monóxido de carbono.
Veja: os abandonados que esperam em vão
no ponto da esquina vão respirando fundo,
lentamente, como quem aspira a morte.
E contra o amor em passeata, amor,
eles detonam gás lacrimogêneo,
cavalos investem no passeio, morre sob patas
uma mulher que não protege os seios.
O amor está no hospício tratado como vício.
(Poema de Nei Leandro de Castro in Era uma vez Eros, foto de imagem do Google)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Pra não dizerem que deixei de ser romântico e sensual

Brinco de compor teu corpo inteiro,
teu corpo claro mistério
em jogos de luz e sombra.
A haste do pescoço sustenta a flor do rosto
que bebe na seiva da região dos seios
onde formas arredondadas se eriçam: arrepios.
Um fio a prumo invisível desce do umbigo
ao abrigo das carícias, todas, lembradas
em manhãs e madrugadas. Claridade.
Ouso compor a maciez do púbis castanho,
escargots de pêlos que se aninham
à sombra da pele muito branca. Ali,
o pássaro-pássara do meu desejo
de plumagem molhada às primeiras carícias
ou aos sussurros que supõem a delícia
de amar, fazer amor, fazer doçuras,
doces loucuras, bagunça, estripulias
que você nem lembra se já fez um dia.
O retrato visto de outro ângulo, subjetivo:
o prazer da entrega que sobe dos pés,
ergue-se pelas colunas macias das coxas,
envolve o sexo e o torna umedecido,
vem linha reta até a boca, flor e sexo,
e se completa na luz e sombra desses olhos
que prometem jogos intensos de ternura,
tesão e travessias travessuras.
(Poema de Nei Leandro de Castro in Musa de Verão, ilustração de Modigliani)