segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Uma fabulazinha de Franz Kafka

"Ai de mim!" exclamou o camundongo, "o mundo está ficando cada vez menor. De início era tão grande, que eu me apavorava. Vivia correndo para cá e para lá, é só me tranquilizava quando via, por fim, paredes bem distantes à esquerda e à direita. Mas o espaço entre essas paredes estreitou-se tão rapidamente que já me encontro na última câmara, e vejo ali no canto a ratoeira onde de certo esbarrarei."
"Ora, basta-lhe escolher outro caminho", disse o gato antes de engoli-lo.
(foto Sandra Porteous)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Annabel Lee

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
**
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
A ambos nos invejar.
**
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
**
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem da noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
**
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
**
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
(de Edgar Allan Poe, tradução de Fernando Pessoa)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Solo

Existe um bairro
perdido entre duas esquinas
que recende docemente a estrelas.
Não há pássaros: só passos.
A ternura cresce
entre os paralepípedos
e um solitário colhe-a
como quem colhe alfazemas.

(in Diário Íntimo da Palavra, Nei Leandro de Castro. Foto Sandra Porteous)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Depois do gozo

Não durma agora, meu amor, espere um pouco.
Banhe-se no brilho de aurora dos meus olhos,
no lago dos nossos leites sobre o lençol,
na brisa morna dos meus suspiros, do meu hálito,
na fonte murmurante do pós-coito feminino.
(in Poemas Devassos e uma canção de amor, Nathália de Sousa. Ilustração de Toulouse Lautrec)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O rio e as ruas

"E tudo vive em nós, herdeiros de gerações incontáveis e de culturas sucessivas."
(in Civilização e Cultura, Luis da Câmara Cascudo)
O rio e as ruas
Nei Leandro de Castro
O rio era belo. Simples em sua beleza, só se tornava vaidoso, cheio de si, quando o pôr-do-sol saturava de ouro o seu dorso. Nas manhãs dos sábados e domingos, os meninos começavam a dar seus gritos de alegria, acima do casario, as águas do maior parque de diversões do mundo. Era bonita a festa. Mergulhos, disputas de cangapés, tentativas de atravessar o rio para apanhar os aratus que desfilavam no manguezal da outra margem. À beira do mangue, os chama-marés acenavam com suas patas enormes.
O rio era profundo, às vezes com fortes correntezas, mas não há registro de um só afogamento em suas águas. Os meninos não tinham medo de se afogar. O medo maior era de um ataque de cações, que chegavam traiçoeiros e famintos pelas águas da maré cheia. Diziam que os cações tinham cheiro de melancia. No meio do rio, alguém gritava "Cheiro de melancia!", e o grito de alerta causava pânico em todos. O mistério dos cações e seu estranho e inexplicável cheiro nunca foi comprovado. Mesmo assim alguns meninos daquela geração deixaram de comer melancia pelo resto da vida.
O rio era uma ponta de um azul liquefeito. Alcançar o outro lado era desafio para os melhores nadadores. Mais fácil era pegar o barco a vela no cais Tavares de Lira e fazer uma viagem de quinze minutos até a Redinha. Travessia, travessias. As redes de pescar dos nativos da Redinha, quando não estavam colhendo peixes o mar, ficavam estendidas para colher as cores do pôr-do-sol e as primeiras luzes do alvorecer.
O rio Potengi guardava segredos seculares. No seu leito, de águas mornas, há mais de quatro séculos, um pirata francês chamado Jacques Riffault, depois de exercer a pirataria, enchia o seu barco de indiazinhas com suas "vergonhas rapadas". O francês era gentil e amoroso. As índias amavam aquele homem de fala engraçada e muita delicadeza.
(...)
(foto Sandra Porteous)

sábado, 17 de janeiro de 2009

Sonhos de Einstein

É impossível caminhar por uma avenida, conversar com um amigo, entrar em um edifício, relaxar sob os arcos de arenito de uma velha arcada, sem ver um instrumento de medição do tempo. O tempo é visível em todos os lugares. Torres de relógio, relógios de pulso, sinos de igreja, dividem os anos em meses, os meses em dias,os dias em horas, as horas em segundos, cada incremento de tempo marchando atrás do outro em perfeita sucessão. E, além de qualquer relógio específico, uma vasta plataforma de tempo, que se estende por todo o universo, estabelece a lei do tempo igualmente para todos. Neste mundo, um segundo é um segundo é um segundo. O tempo avança com exuberante regularidade, com exatamente a mesma velocidade em todos os cantos do espaço. O tempo é um soberano infinito. O tempo é absoluto.

(in Sonhos de Einstein, Alan Lightman. Foto de Sandra Porteous)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Autobiografia

Comentário de Joaquim Francisco Coelho, professor de Língua e Literatura da Universidade de Harvard, sobre o livro "Autobiografia", de Nei Leandro de Castro. (...) "Você conseguiu o tom perfeito para a poesia memorial, esse gênero que não raro pode ser traiçoeiro, fazendo-nos inconscientemente derrapar no sentimental suspiro pelo que perdemos (ou se perdeu) na curva do tempo. Você suspira, certo, mas com o contrôle dos poetas que não confudem o lirismo piegas com aquilo que constitui o afeto profundo, digamos, a parte mais íntima da alma. Essa policiada dignidade perante as coisas do coração se afirma logo no poema proemial, com a solidão escrita a canivete na lousa de asfalto. Acho que é a primeira vez que vejo canivete e asfalto coroados de tocante poesia. E a cidade que você canta (rio, ruas, bairros, tipos populares, de mistura a recordações amorosas e escolares) cantará em nós, doravante. Cantará em mim, de certeza."