terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Anotações de leitura

(...)
O jardim, entregue a si mesmo havia mais de meio século, tornara-se extraordinário e encantador. Quem por ali passasse há quarenta anos parava na rua para contemplá-lo, sem desconfiar dos segredos que ocultava por trás da folhagem. Mais de um sonhador, não poucas vezes, deve ter deixado os olhos e o pensamento penetrar indiscretamente através das barras daquela velha grade fechada (...)
(in Os Miseráveis, Victor Hugo - foto Sandra Porteous)

domingo, 4 de janeiro de 2009

Chamada dos Ausentes

Este poema, escrito por Nei Leandro de Castro, foi declamado numa cerimônia realizada em Natal no dia Internacional de Solidariedade para com o Povo Palestino em 29 de novembro de 1982. Lamentavelmente, ele continua atual.
Chamada dos ausentes
(...)
Os mortos, os desaparecidos, os ausentes
- voluntários de um rito pela liberdade -
estão em cada um de nós.
Onde está o primeiro guerrilheiro adolescente
que investiu contra os tanques do invasor?
- Presente.
Onde está o poeta Mahmud Darwich
aquele que disse: "Meu sangue é um fio de azeite
que alimenta a lâmpada da liberdade?"
- Presente.
Onde está o patriarca que já perdeu todos os filhos
na frente de combate e tem nos olhos
mais ardor de luta do que luto?
- Presente.
Onde estão os versos de Samir Al Quassim,
aquele que leva um sol na mão direita
e repete nas encruzilhadas da noite
o canto do ardor?
- Presente.
Onde está a menina palestina
que descobriu o primeiro amor de sua vida
minutos antes de ser metralhada no pátio da escola?
- Presente.
Onde está a poesia guerrilheira de Fadwa Tuqan,
mais temida pelo inimigo do que dez atentados?
- Presente.
Onde está a mãe que já não embala o recém-nascido
porque perdeu os braços na explosão?
- Presente.
Onde estão tuas palavras, Muhamad Al Quissi,
gritadas ao vento quando a noite é uma horda de lobos dementes?
- Presente.
Onde está a solidariedade da poesia,
elo de lã de aço entre os homens?
- Presente.
Onde está a Palestina massacrada?
- Presente.
Onde está a Palestina libertada?
- Presente.
Onde está a Palestina?
- Presente.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O Potengi

"Esse rio é uma loucura,
esse rio é um assombro,
já fiz amor no seu leito
com água pelos meus ombros.
(...)
Esse rio é tão bonito
que perdôo sua loucura.
Ele afoga o pôr-do-sol
e corre à minha procura."
(in Autobiografia, Nei Leandro de Castro, 2008, foto Sandra Porteous)

domingo, 21 de dezembro de 2008

Anotações de leitura

"...Enquanto vivemos na nossa terra, parece-nos que aquelas ruas nos são indiferentes, que aquelas janelas, telhados e portas nada significam, que aquelas paredes são completamente estranhas, que aquelas árvores nasceram ontem, que aquelas casas, onde nunca entramos, são inúteis, que as ruas por onde andamos não passam de simples pedras. Mais tarde, quando estamos longe, é que percebemos como nos são queridas aquelas ruas, como nos fazem falta aqueles telhados, aquelas janelas e portas, como nos são indispensáveis aquelas paredes, como gostamos daquelas árvores, como aquelas casas, onde nunca entramos, faziam parte da nossa vida, e que deixamos entranhas, sangue e coração nas pedras daquelas ruas."
(by Victor Hugo, in Os Miseráveis)

sábado, 20 de dezembro de 2008

Caicó

Ah, o Itans. Sofro, como todo caicoense, quando vejo que a sua lâmina d'água está abaixo do normal. E transbordo de alegria quando suas águas transbordam. Itans são águas que beijam e embalam o sertão, Itans são as primeiras águas que vi na vida. Itans é uma referência de emoção, Itans é uma ternura líquida e certa.
(Saudação a Caicó, Nei Leandro de Castro - foto de Sandra Porteous)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

In the middle of the trip.

Estão chegando
os quatro cavaleiros
montados em metais
soprando trombetas
em gozos letais
exibindo a cor do som
(mistura de todas as cores
inclusive a marrom)
e o som escorre
como um arco-íris de lata
e a viagem
mais do que me embala
me mata.
(in Musa de Verão, 1984, Nei Leandro de Castro - Foto: Sandra Porteous)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Kirimurê

"... Salve as folhas brasileiras Oh salvem as folhas pra mim Se me der a folha certa E eu cantar como aprendi Vou livrar a Terra inteira De tudo que é ruim. Eu sou o dono da terra Eu sou o caboclo daqui Eu sou Tupinambá que vigia Eu sou o dono daqui..."
(Jota Velloso, foto Sandra Porteous)